segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Como arrastar linha defensiva - Alemanha olímpica e Arsenal




Trago dois lances que aconteceram este fim-de-semana com semelhanças na exposição da linha defensiva e na forma como quem atacou criou espaço para finalizar. Nos Jogos Olímpicos, no primeiro golo da selecção alemã, Brandt recebe entre linhas no corredor central com bola vinda da direita, um colega entra no espaço entre central e lateral, arrastando o defesa esquerdo português, Fernando Fonseca, permitindo a Gnabry finalizar em boas condições (sendo verdade que individualmente eram bastante superiores, os alemães demonstraram todas as debilidades defensivas colectivas dos portugueses já perceptíveis nos encontros anteriores). Em Inglaterra no Arsenal-Liverpool, Iwobi recebeu bola entre linhas em espaço interior à esquerda, com bom timming Ramsey e Alexis foram na profundidade sobre a última linha do Liverpool, sendo que o galês arrastou o Klavan central do lado contrário e permitiu o golo a Walcott.

Em ambas as situações decisivo o arrastamento dos defesas por parte de quem entrava à profundidade para criar o desequilíbrio. Com efeito, o movimento dos jogadores que atacam a última linha, criando dúvida nos defesas, parece-me ser um aspecto, por vezes, negligenciado em muitas equipas, nomeadamente em Portugal, com as equipas a preferirem procurar logo uma opção em largura antes de arrastar o lateral e a restante linha defensiva, fazendo com que quem receba a bola tenha naturalmente menos espaço para progredir 

domingo, 3 de julho de 2016

Construção Itália vs Espanha




No jogo que opôs Itália e Espanha nos oitavos-de-final do Europeu, um dos aspectos que esteve em maior evidência foi a construção italiana, que permitiu não só relativo equilíbrio na posse de bola, mas também chegadas regulares à baliza espanhola.

A Itália saiu quase sempre curto através dos 3 centrais (Barzagli à direita e Chiellini à esquerda), quanto maior fosse a pressão espanhola, mais largura davam. Procuraram essencialmente a referência à largura (por norma os externos) ou o passe vertical para um dos médios, Giaccherini à esquerda ou Parolo à direita, recuavam e juntavam-se a De Rossi para receber a bola à frente, constituindo-se também como apoios frontais.

Um aspecto bastante interessante da selecção italiana neste momento do jogo foi a largura dada por Giaccherini à esquerda, mas também, ainda que menos vezes por Parolo à direita. Estes movimentos  na 1ª fase de construção, arrastaram jogadores espanhóis, retirando-os da zona central, e quando os italianos conseguiam fazer rodar jogo para o meio (o que nem sempre aconteceu, porque também eram pressionados nesse momento) conseguiam progredir em boas condições. Quando os dois interiores se adiantavam, era De Rossi com os centrais que dirigiam jogo a partir de trás, com o médio da Roma, tendo espaço e tempo dada a ausência de pressão espanhola, a recorrer ao passe longo para progredir

A competência italiana não se ficou pelas fases mais precoces da construção. Com a Espanha a pressionar alto, e apesar de colocar muitos jogadores em zonas recuadas para responder, a Itália foi capaz de jogar com os dois avançados através de passes verticais/jogo directo. Pellé e Éder saiam da marcação, recuavam, e vinham receber no grande espaço entre linhas, derivado do adiantamento dos médios da Espanha. Nota para a constante reacção ao movimento da bola por parte dos italianos. Quando alguém recebia entre linhas tinha apoio próximo, e também na profundidade para fazer bola seguir, além dos avançados também Giaccherini e Parolo apareciam nesse espaço de trás para a frente. (e o facto de por vezes irem de dentro para fora, também arrastou adversários para avançados receberem com mais espaço).

A resposta espanhola à competência da Itália não parece ter dado grandes resultados. Tentaram pressionar alto e ainda que tivessem impedido a construção em algumas situações, foram ultrapassados com frequência. Os 3 da frente (Nolito, Silva e Morata) muito preocupados em sair na pressão aos centrais mas não conseguiram evitar que a bola entrasse nas suas costas, (muitas vezes não ajustando para se posicionarem entre a bola e a baliza permitindo passes interiores). Iniesta e Fabregas arrastados para o corredor lateral, sem que os da frente recuassem e fechassem espaços interiores, fizaram com que a Itália quando conseguia sair pressão à esquerda ou à direita tivesse espaço para progredir, quer por fora do bloco, quer solicitando das alas para o espaço entre linhas os avançados que, como já foi referido, tiveram muito espaço para receber. Foi notório ao longo do jogo o desconforto espanhol sem bola.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Por terras de França III

Algumas notas sobre a Polónia

No jogo frente à Suíça a Polónia apresentou-se  no habitual 4x4x2 clássico. Defensivamente fazem por ser compactos, têm um golo sofrido em 4 jogos, mas com bola são previsíveis, pese a qualidade individual na frente, sendo mais perigosos quando conseguem chegar rapidamente à baliza adversária após ganharem a bola.
Sem bola os polacos mantêm o 4x4x2 clássico (por vezes assumem variante 4x4x1x1). Lewandowski e Milik numa primeira linha de pressão tentam fazê-la juntos ocupando o meio, sendo que, muitas vezes não chegam a tempo de impedir progressão por espaço interior (a Suiça aproveitou este espaço maioritariamente através da condução do lateral, mas William ou um dos médios pode dirigir jogo a partir daqui), quando pressionam aí, deixam corredor central aberto. Apesar de os dois médios interiores estarem relativamente distantes dos colegas da frente, podem avançar para pressionar jogador que recebe bola e tentar não deixar enquadrar com a sua baliza se situação for favorável a isso. São efectivos e criteriosos no momento de pressionar mas é possível jogar nas suas costas.
Os extremos polacos defendem em função do lateral adversário. Na 1ª fase de construção se não há adiantamento, quando adversário recebe bola saem à pressão, se avançam acompanham directamente permanecendo à largura. Se Portugal optar por adiantar desde cedo os laterais poderá conseguir instalar-se mais tempo no meio-campo ofensivo, pois com os extremos a acompanhar laterais, os polacos perdem capacidade de pressão em zonas mais adiantadas.
A linha defensiva começou a partida de sábado subida e bem próxima dos médios. Os laterais têm tendência a acompanhar o extremo, mesmo que este se encontre em zonas baixas, pressionando mal este recebe bola. Nesta circunstância, são os centrais que asseguram a cobertura aos laterais e também quem avança e pressiona entre linhas quando bola entra nesse espaço, novamente se existirem condições para isso. Uma particularidade da linha defensiva polaca, reside no posicionamento dos laterais, apesar de pressionarem o extremo à largura, quando a bola está no meio e têm adversário directo entre linhas, ficam fixados na sua marcação e é possível explorar as suas costas neste momento.

A figura – Lewandowski

Lewandowski, avançado do Bayern Munique, é o jogador polaco com maior currículo. Na selecção, assume maior protagonismo na construção de jogo e baixa bastante para tocar mais vezes na bola e sai com frequência da zona de acção dos centrais. Varia entre jogar de costas como apoio frontal (mais frequente quando é referência em transição no meio) e enquadrar com a baliza adversária mesmo entre linhas para procurar fazer passe de ruptura. Não tem sempre o melhor critério, já que, por vezes força demasiado a progressão, mas é uma ajuda valiosa

Cai com frequência nos corredores laterais para receber bola, principalmente em transição, o que dificulta o aparecimento em zonas de finalização, e também por isso ainda não tem ainda qualquer golo neste Europeu.

(Texto originalmente publicado no Jornal Único)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Alemanha e a gestão da ruptura




A propósito do jogo alemão neste Europeu, já aqui tinha referido as dificuldades sentidas em ultrapassar a última linha adversária em parte pela ausência de movimentos de ruptura nas costas da defesa de adversária, sendo este, naturalmente um espaço pouco aproveitado pela Alemanha nos primeiros dois jogos.

Na partida frente à Irlanda do Norte (e ressalvar que a oposição não foi tão forte) os alemães aparecem mais disponíveis e preparados para efectuar movimentos de ruptura, quer através da movimentação dos homens na última linha a forçar profundidade, quer por homens que apareciam de trás para a frente.

Muller juntou-se muitas vezes no corredor central ao avançado Gomez, deixando o lado direito a cargo de Khedira ou Ozil que por vezes aparecia na zona. Com a habitual forte presença entre linhas (já que, à esquerda Gotze também vinha para dentro) a Alemanha conseguiu romper a defesa norte-irlandesa, com os jogadores que tinham bola nesse espaço muitas vezes a procurarem jogar a um toque para quem aparecia na profundidade. Neste aspecto em concreto, especial destaque para Muller que foi mais quem entrou na ruptura com um timming assinalável. E os movimentos à profundidade não serviram somente para receber bola com a defesa irlandesa ultrapassada, também permitiram que o jogo exterior fosse melhorado, uma vez que, não raras vezes os laterais irlandeses foram arrastados para dentro permitindo a quem recebia a bola por fora, mais espaço para definir lance.

A Alemanha tem conseguido, fruto de um futebol de qualidade assinalável, jogar dentro do bloco adversário, fazendo bom uso do corredor central e espaço interior. No entanto, era notório que faltavam movimentos de ruptura dos jogadores sem bola na última linha para desequilibrar a defesa adversária, até porque com tanta presença entrelinhas, mas sem entradas no espaço, o jogo acabava por ir para os corredores laterais, não sendo aproveitadas as boas condições que os próprios jogadores criavam. No último jogo, ainda que com aspectos passíveis de serem melhorados, "bastou" a equipa identificar alguns momentos em que os movimentos de ruptura seriam pertinentes e a dificuldade em chegar ao último terço foi bem menor, até porque o portador da bola soube identificar o momento de procurar esse espaço. 

Nota final para a mecanização já referida acima, com bola a entrar entre linhas (muitas vezes vinda de fora) e jogador que recebe nesse espaço joga a um toque para entrada de terceiro homem na ruptura, esta é a situação que, por exemplo, originou o golo

terça-feira, 21 de junho de 2016

Por terras de França II

Portugal e as dificuldades no jogo de criação

Frente à Áustria Fernando Santos em comparação com o jogo anterior retirou um médio, João Mário, e lançou um extremo, Quaresma, mas os problemas perante uma defesa recuada e compacta mantiveram-se.
Na partida de sábado enfrentando a postura expectante da Áustria que defendia com duas linhas de 4 no seu meio-campo, Portugal viu-se obrigado a assumir a posse de bola. Com Nani preferencialmente no meio, os extremos Ronaldo, à esquerda, e Quaresma à direita (ainda que pontualmente fossem trocando com Nani também a aparecer nos corredores laterais) começaram por dar largura ao ataque e a receber bola junto à linha lateral e à medida que o jogo avançava foram cada vez mais procurando espaços interiores, permitindo o adiantamento mais frequente dos laterais Vieirinha e Guerreiro. No meio-campo, a William Carvalho a dirigir jogo atrás juntava-se André Gomes mais pela esquerda, enquanto que, Moutinho à direita tinha tendência para progredir juntando-se aos jogadores da frente, acabando por arrastar marcação e permitindo que o central do seu lado, Pepe, tivesse espaço para avançar com bola e assumisse um papel de destaque na construção de jogo (aspecto em que não esteve feliz não conferindo fluidez à circulação somando perdas de bola). Na segunda parte foi André Gomes que se adiantou mais vezes à esquerda, permanecendo Moutinho recuado.
Pese embora, Portugal tenha feito o suficiente em termos de oportunidades de golo para vencer o jogo, continuam evidentes algumas dificuldades em criar perigo. Quaresma e Ronaldo quando iam para espaços interiores limitavam-se a jogar de costas para a baliza adversária e a devolver ao apoio frontal, dificilmente recebiam, ou procuravam receber, bola entre linhas recuando até à linha média austríaca tocando a bola para trás. O avanço de João Moutinho permitiu a Pepe espaço para construir mas também raramente conseguiu receber a bola no meio, dentro do bloco adversário, isto fez com que Portugal chegasse ao último terço essencialmente pelos corredores laterais, nomeadamente através de variações de corredor através de passes longos onde William Carvalho se destacou. Quando a bola se encontra nos jogadores de trás (médios e defesas) existe a preocupação de existir movimentos de aproximação ao portador da bola, mas o mesmo não acontece quando a bola entra entre linhas, sendo que quem recebe nessa zona só esporadicamente consegue fazê-lo de frente para a baliza adversária e continuar a progredir.
Desta forma, e para chegar perto da baliza austríaca a Portugal restou o bom envolvimento de Raphael Guerreiro pela esquerda e vários cruzamentos onde a selecção consegue colocar um número considerável de jogadores zona na área para finalizar mas os defesas adversários foram quase sempre mais fortes.

Nota final para a boa reacção à perda da bola. Portugal raramente permitiu contra-ataques adversários. Mérito dos médios que se encontravam atrás da linha da bola no momento da perda, ainda que João Moutinho e William Carvalho pela forma como escolheram o timming para pressionar, distinguindo as situações onde podiam desarmar ou simplesmente temporizar acção do adversário, mereçam especial destaque.

A evolução de Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo alcançou o estatuto de um dos melhores jogadores do mundo nos últimos anos essencialmente por aquilo que fazia (e faz) no último terço do campo. Partindo preferencialmente da esquerda é muito forte a definir próximo da baliza adversária, de trás para a frente, sendo que, aparecia mais do que estava em zonas de finalização e no corredor central. Nos últimos tempos cada vez mais Ronaldo é visto com maior frequência no meio, e no caso da selecção, em zonas até bastante recuadas. Sendo a evolução natural num jogador das suas características, Cristiano ainda parece longe da excelência nas suas novas funções. A pressão é feita com mais jogadores e o tempo para decidir escasseia, e terá de ajustar o perfil de decisão quando tem a bola, nomeadamente o timming em que a solta. Nem sempre equaciona o envolvimento com os colegas e força demasiado a finalização, não sendo nessa zona tão profícuo como uns metros mais à frente. 


(Texto originalmente publicado no Jornal Único)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Algumas notas sobre a Áustria

O segundo jogo da selecção portuguesa em França promete ser bastante diferente do primeiro frente à Islândia. Desde logo pela pressão a que os austríacos estão sujeitos em função de derrota por dois golos frente à Hungria mas também devido à forma como irão encarar o jogo.

A Áustria deverá apresentar-se em 4x4x1x1 com um pressing dos mais altos que podemos ver no Euro-2016. Com um bloco médio-alto, a pressão tem inicio a meio do meio-campo adversário. Janko é o homem mais adiantado, com o 10 Junuzovic a juntar-se de trás para a frente na pressão aos centrais. Se Portugal optar por sair a jogar curto, a linha defensiva pode contar com pouco tempo para definir os lances. Neste momento do jogo, Arnautovic à esquerda permanece em posição interior e dificilmente recua até bola entrar nas suas costas, mesmo que lateral se adiante. À direita apesar de partir de posição semelhante Harnik tende a recuar mais cedo se necessário.

O grande desafio de Portugal para este jogo será responder à pressão constante dos austríacos, porque se a primeira linha defensiva é arrojada, Alaba e  Baumgartlinger, os dois homens do meio-campo, também parecem ter ordem para encurtar espaços. São quem faz a cobertura aos extremos quando a bola entra nas suas costas e mesmo que por vezes sejam só dois a cobrir um espaço considerável de terreno, raramente abdicam de pressionar quem se encontra de frente para as duas últimas linhas austríacas, por vezes ainda dentro do meio-campo ofensivo. E aqui parece-me estar uma das chaves do jogo de amanhã. A construção portuguesa ainda não convenceu com os movimentos de dentro para fora do bloco dos médios no auxílio a Danilo, ficam muitas vezes de costas para a baliza adversária e podem somar perdas de bola importantes nessa zona do terreno, que se não originarem situações de golo para os austríacos podem pelo menos dificultar um jogo fluído da selecção, porque sem o adiantamento dos laterais e com os médios por vezes sobrepostos fora do bloco adversário, a Áustria pode sentir-se confortável no jogo.

A boa notícia é que apesar de algum arrojo na pressão, a linha defensiva da Áustria recua com facilidade e reage baixando aos movimentos em profundidade dos homens da frente, nomeadamente os centrais. Com Alaba e Baumgartlinger a cobrirem muito espaço a bola pode entrar nas suas costas ou na zona entre estes e os alas. É verdade que os austríacos contra a Hungria mostraram-se reactivos, ou seja, apesar do espaço que concedem quem é ultrapassado pela linha da bola recua rapidamente mas há condições para atacar com qualidade. Outro aspecto a explorar poderá ser a variação de corredor. Com os extremos adiantados na pressão, e a tendência dos dois homens do meio para bascular e pressionar haverá espaço interior do lado contrário ao da bola e este poderá ser um meio interessante para entrar no meio-campo adversário.

Ofensivamente variam entre as saídas curtas pelos centrais com ajuda dos médios e jogo directo para o avançado Janko que se disputa primeira bola em zona interior tem apoio dos extremos, enquanto que meio, Junuzovic aproxima. Os extremos variam entre ir ligeiramente dentro e permanecerem à largura, mas são os responsáveis pela característica ofensiva mais visível, (e que acaba por ser mais determinante) a grande profundidade que dão ao ataque. Não é raro ver Arnautovic e Harnik na mesma linha de Janko, bastante adiantados mesmo quando a bola ainda está recuada. Isto origina alguns passes verticais/jogo longo pelos colegas de trás que não foram especialmente eficazes contra a Hungria, até porque o jogador que recebe a primeira bola, se não for Janko, por vezes não tem o apoio devido. Ainda assim, nota para o facto de a Áustria quando tem a bola durante mais tempo pode colocar facilmente 4 jogadores à entrada da área adversária, o que retirando fluidez à circulação atrás, pode causar dificuldades à linha defensiva portuguesa se esta baixar sem o apoio dos médios.

Em zonas mais baixas, além dos centrais Alaba e Baumgartlinger tentam uma construção mais curta. Um deles pode inserir-se entre linhas à procura do passe vertical ou da referência à largura (laterais adiantam-se quando extremos vão para dentro, ainda que Fuchs tenha ensaiado entrar no espaço entre linhas com Arnautovic à largura). Se Portugal optar por baixar ligeiramente o bloco, tem na recepção de bola dos passes verticais entre linhas um bom momento de pressão, nomeadamente quando quem recebe bola são os extremos que recebem de costas e sem apoio próximo, não existe aproximação dos colegas nesse momento tornando complicada a vida do portador da bola. Pese estes momentos de alguma pausa, o jogo preferencial da Áustria parece ser colocar rapidamente os extremos de frente para a baliza adversária, através de variações de corredor. Importante médios portugueses assegurarem ocupação do meio, para que as solicitações dos extremos sejam por fora e não ultrapassem a linha média para não expor linha defensiva.

A transição defensiva austríaca também aparece como um aspecto passível de ser explorado, na minha  opinião. Com os 4 da frente muito adiantados, Alaba e Baumgartlinger têm no momento da perda especial importância (se um deles não estiver junto dos avançados). Mesmo aqui os dois do meio nem sempre abdicam de pressionar, sendo que, a linha defensiva, nomeadamente os centrais têm tendência para recuar. Com alguma preparação creio que existem condições para colocar a bola nas costas dos médios austríacos e progredir a partir daí em condições altamente favoráveis.

A selecção portuguesa é naturalmente favorita, e num jogo contra uma equipa que não deve ter grandes problemas em pressionar mais alto, é necessário controlo emocional e que os jogadores sejam mais criteriosos ao contrário do que aconteceu após o golo da Islândia na primeira jornada, para manterem a serenidade mesmo que comecem por perder algumas bolas fruto da pressão. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Por terras de França I

Alemanha – Primeiras Impressões

No jogo frente à Ucrânia, os alemães mantiveram a identidade que os caracteriza nos últimos anos. Domínio do jogo através da posse de bola, preferencialmente no meio-campo adversário envolvendo muita gente no ataque.
Na primeira parte a Ucrânia apareceu recuada com médios e defesas a fazerem duas linhas de 4 juntas, mas baixas começando a pressionar já bem dentro do seu meio-campo. A Alemanha respondeu com o adiantamento dos laterais, que davam largura quando equipa tinha bola, preferencialmente Kroos na meia-esquerda e Khedira na meia-direita a dirigirem jogo de frente para o bloco ucraniano com o auxílio dos centrais (especialmente Boateng). Os alas Draxler e Muller procuravam frequentemente espaços interiores, juntando-se a Ozil Goetze no meio, fazendo com que o espaço entre as duas linhas ucranianas estivesse preenchido com no mínimo sempre alemães que garantiam que a posse de bola da equipa progredisse.
A Alemanha na primeira parte, regra gera, foi bastante criteriosa quando teve bola, preferencialmente através de passe curto, alternando com bolas longas a procurar as costas da defesa. Os movimentos dos avançados fizeram com que a restante equipa ganhasse espaço para jogar, ao fazer recuar a linha defensiva ucraniana. À mobilidade dos 4 da frente, os jogadores de trás foram pacientes realizando o passe vertical que permitiu avançar no momento certo, (destaque para Kroos) ainda que Boateng tivesse revelado algum desacerto inicial na procura do extremo/lateral do lado oposto ao seu. À direita do ataque alemão o extremo esquerdo ucraniano Konoplyanka fechava o seu corredor baixando para junto da linha defensiva, ao passo que Yarmolenko do outro lado se juntava aos médios estando mais adiantado. O recuo de Konoplyanka para junto dos defesas permitiu à Alemanha mais espaço para jogar, ainda para mais sendo esse o espaço de Khedira que se adiantava mais que Kroos. Em alguns momentos existiu aglomeração nessa zona (pois Ozil e/ou Goetze juntavam-se a Muller e ao lateral Howedes) com a Ucrânia a fechar bem e os alemães procuraram variar o jogo através de passe longo para o lado contrário para Hector ou Draxler que conferiam largura (com Yarmolenko muito por dentro) havia espaço para jogar.
Pese embora o mérito na forma como entraram  frequentemente no bloco ucraniano, a Alemanha revelou dificuldades em ultrapassar a linha defensiva adversária que se apresentou muito coordenada, raramente permitindo que a bola entrasse suas costas, obrigando os alemães a procurar o jogo exterior através de cruzamentos no último terço ainda que com boa presença em zona de finalização.
Na segunda parte, a Ucrânia entrou com os médios a pressionarem mais à frente. Como a linha defensiva se manteve conservadora a Alemanha jogou entre linhas com maior facilidade, ainda que os problemas no último terço se tenham mantido, mesmo em situação de contra-ataque, mais frequente dada a desvantagem ucraniana no marcado.
Defensivamente, e ainda que seja preciso uma melhor análise, deu para ver que nem sempre a equipa reage colectivamente à pressão exercida por um colega, o que permite ao adversário jogar, bem como o tempo exagerado que por vezes os médios demoram a juntar à linha defensiva.

Destaque individual – Dimitri Payet

Primeira grande figura do Euro-2016 e destaque inteiramente merecido não só pelo golo que valeu a vitória mas pela fantástica exibição. Não desiludiu e não só pela indiscutível qualidade técnica e de passe. Na primeira parte começou na ala esquerda mas cedo procurou espaço interior e até foi para fora do bloco adversário para definir jogo. Sempre criterioso com a bola nos pés, a procurar envolvimento e tabelas com os colegas, muito bem a definir o timming para soltar a bola. Marcou o ritmo de jogo da França, sabendo quando temporizar o ataque por forma a ter mais e melhor apoio ou progredindo através da condução. Boa inserção no espaço entre linhas como é prova o lance do segundo golo. Quando após as substituições passou a jogar definitivamente no meio foi evidente que sabia quando devia afastar ou aproximar do portador de bola para lhe dar o melhor apoio

(Texto originalmente publicado no Jornal Único)